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6.4.2. Caracterização
tecno-tipológica sumária
A totalidade da indústria recolhida na zona escavada, incluindo a do talude pré-existente, num total de 1253 artefactos líticos, apresentada no quadro 5 e na figura 25, revela uma estrutura geral idêntica à das restantes áreas, com a única diferença de ser maior a representação relativa das esquírolas de talhe (28%), o que se compreende devido às metodologias de recolha utilizadas em cada caso.
Pode, pois, o conjunto proveniente da escavação ser legitimamente considerado como amostragem representativa da totalidade da indústria deste sítio. E se a este facto acrescentarmos as especiais circunstâncias de controlo estratigráfico e deposicional reunidas nesta área intervencionada, compreende-se que lhe tenhamos dado prioridade, concentrando maiores atenções na respectiva análise e caracterização tecno-tipológica mais detalhada.
Serão apresentados, sucessivamente, as massas nucleares (os núcleos, por facilidade de expressão), as lascas não transformadas em utensílios (a debitagem) e os artefactos de arestas retocadas (os utensílios sobre lasca).
6.4.3. Os núcleos
As indicações até aqui dadas acerca de estrutura tecno-tipológica geral da indústria lítica do sítio da Conceição não permitem, salvo nas breves referências já feitas relativamente à sua inserção regional, avaliar da sua atribuição cronológico-cultural. Poderão fornecer elementos a ter em conta no momento de síntese quanto, carecendo de detalhe, para que possam, com maior clareza, permitir posicioná-las no âmbito do Paleolítico Médio. Uma primeira aproximação, porventura a mais eficaz e elementar de o fazer no plano tecnológico (haja em vista, por exemplo, as observações de Eric Böeda sobre o assunto), é a da análise das massas nucleares.
No quadro 6 apresenta-se o conjunto de dados da descrição dos núcleos a que procedemos, de acordo os critérios adoptados (v. figura 17). No total registaram-se na área escavada 218 formas nucleares, das quais cerca de 30% cada correspondem respectivamente a esboços e fragmentos e os restantes 40% a núcleos volumetricamente organizados (quadro 5).
Desenvolvendo estes dados no plano tipológico, encontramos um elemento-chave de diagnose cultural, a saber: do total de núcleos volumetricamente organizados, mais de 4/5 são representados por formas discóides e Levallois, exploradas segundo modalidades centrípetas recorrentes. As formas de tipologia mais primitiva, comuns nas indústrias acheulenses por exemplo, como é o caso dos núcleos globulosos preenchem a percentagem restante (c. 16%), encontrando-se totalmente ausentes as formas características de indústrias do Paleolítico Superior (caso dos núcleos prismáticos ou, em geral, dos núcleos concebidos para exploração de superfícies secantes de concepção volumétrica verdadeiramente tridimensional e não limitada tendencialmente a duas faces opostas).
Para além dos aspectos mais estritamente tipológicos indicados, diversos outros dados emergem do quadro 6. A matéria-prima dos núcleos, como a da indústria em geral, é esmagadoramente dominada pelo quartzito e as massas iniciais por seixos de dimensões relativamente pequenas (como, em geral, são quase todos os seixos das cascalheiras do “terraço baixo” na zona estuarina do Tejo, cuja origem reside sobretudo na remobilização de depósitos mais antigos situados a cotas superiores, incluso o substrato detrítico pliocénico) e rolamento acentuado, embora seja evidente uma selecção intencional de dois tipos de volumetrias: seixos naturalmente achatados, em certos casos; e sobretudo seixos de configuração susceptível de oferecer, à partida, ângulos de ataque (nunca propriamente arestas, dado o rolamento fluvial) propícios à definição de superfícies de preparação e faces de exploração activa.
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