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4.2. Datação do
horizonte arqueológico
É com o segundo ciclo sedimentar referido que se relaciona o horizonte arqueológico em estudo. A atribuição deste ciclo ao período wurmiano não sofre qualquer dúvida, nos termos da interpretação cronoestratigráfica que temos vindo a desenvolver. Será possível precisar melhor uma tal datação, a partir dos critérios geológicos tradicionais que temos utilizado ? Talvez, se tivermos em atenção o registo estratigráfico obtido no talude da zona da escavação, já anteriormente descrito, e os resultados geocronológicos que lhe corresponde (figura 10).
Esta sequência estratigráfica documenta a passagem de uma fase transgressiva a uma fase regressiva: areias fluviais e cascalheiras flúvio-coluvionares de fim de ciclo, encontram-se sobrepostas por areias de forte componente eólica. Considerando que a fase mais antiga do Würm, regressiva, se encontra registada pela superfície erosiva que inicia o ciclo, não pode deixar de atribuir-se o enchimento fluvial subsequente a fase transgressiva importante, relacionada com o grande interestadial wurmiano (ou Würm II/III, na terminologia tradicional), e a ulterior acumulação de areais eólicas a nova fase estadial, porventura ao Würm Recente.
Nestes termos, o horizonte arqueológico associado ao topo da cascalheira, camada D, e à fina camada que a recobre, camada C, deveria ser atribuído a um qualquer momento situado entre o final do interestadial wurmiano e o início do Würm Recente.
Claro que ao pretender atingir tamanha precisão cronológica somente a partir de tais evidências estratigráficas, interpretadas segundo os critérios geológicos tradicionais, se correm importantes riscos. O quadro interpretativo estabelecido pode ser sedutor, mesmo coerente, como cremos, mas dificilmente resistiria quer a objecções que tivessem sobretudo por base a consideração de uma maior recorrência das flutuações climáticas efectivamente ocorridas e, consequentemente, tanto das formações sedimentares associadas, como das descontinuidades sedimentares em presença. E isto já para não falar na fiabilidade da cronologia atribuída ao momento inicial do escavamento do substracto pliocénico, na qual se baseou todo o sistema de cronologia relativa apresentado.
Tão-pouco poderiam, nestas condições, ser utilizadas as indústrias líticas, como frequentemente se pretende e tem constituído por vezes importante vício argumentativo. Com efeito, a datação à partida admissível para as indústrias líticas recolhidas neste local era, e de certo modo continua a ser em quaisquer novos sítios, bem mais ampla do que a datação wurmiana que a mera contextualização geomorfológica e estratigráfica tradicional permite estabelecer. É nestes casos que, em nossa opinião, se torna particularmente útil o recurso a métodos de datação absoluta, quando praticáveis e sempre no pressuposto de que se trata de instrumentos de diagnose auxiliares, a ter em consideração desde que não contradigam de forma chocante toda a envolvência geológica, estabelecida a partir de critérios sólidos.
No caso concreto, a questão colocava-se desta forma: definidos que estavam determinados limites extremos, importava confirmar as interpretações de pormenor.
À partida, pela mera observação da indústria lítica, poderíamos admitir que um qualquer método de datação absoluta nos fornecesse grandezas bastante amplas, que nada permitiria contrariar, desde momentos rissianos (150 a 100 mil anos) até ao Würm Recente (20 a 30 mil anos). Depois da análise geológica e geomorfológica global empreendida, estreitámos a margem possível de datação, limitando-a ao intervalo wurmiano. A partir de uma dissecação mais fina da sequência sedimentar registada na zona escavada, fomos levados mais longe, embora com maior grau de dúvida: final do grande interestadial wurmiano ou inícios do Würm Recente. Faltaria encontrar um método independente de confirmação destes argumentos. Atenta a natureza dos elementos materiais utilizáveis e as antiguidades expectáveis, optámos por recorrer ao método de datação absoluta da termoluniscência (TL), na variante que permite datar os sedimentos (“optically stimulated luminescence”, OSL).
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