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Ponte Vasco da Gama
Por fim, já no Holocénico e na sequência de nova oscilação positiva do nível do mar, dar-se-ia a acumulação de argilas e lodos que marginam o rio e os cursos da água afluentes, constituindo em certos casos, como na zona frontal ao sítio da Conceição, superfícies consideráveis submetidas aos efeitos da variação biquotidiana das marés (os chamadas sapais) e utilizadas comercialmente na produção de sal (até época recente) e peixe.

A realização de uma série de sondagens em profundidade ao longo do traçado da via de acesso à nova ponte Vasco da Gama permitiu-nos acrescentar aos dados pré-existentes, resultantes quase inteiramente de observações feitas à superfície dos terrenos, outros conhecimentos de grande, obtidos pela transposição dos elementos assim obtidos para um corte geológico, com desenvolvimento ao longo de cerca de 600 metros na perpendicular em relação ao rio, e desde os sapais que o marginam (figura 7).

A base da sequência é definida por superfície de erosão, situada entre os 6 e os 22 metros abaixo do nível actual das águas, ao longo de todo o corte de cerca de 600 de metros. Trata-se, sem qualquer dúvida, de uma modelação de terreno correspondente a fase de erosão regressiva, até profundidades maiores, sob o actual leito do rio.

O enchimento sedimentar assente em tal superfície de erosão corresponde a uma sucessão de níveis de granulometria muito variada, desde argilas e siltes até cascalheiras, geralmente de elementos pequenos e médios. É identificável a ocorrência de, pelo menos, dois ciclos sedimentares distintos, ambos iniciados por depósitos finos (argilas e siltes) e terminados por depósitos mais grosseiros já de carácter regressivo (areias e cascalheiras, onde a componente coluvionar é significativa). Entre ambos os ciclos, pode admitir-se a ocorrência de novo período regressivo, evidenciado por segunda superfície de erosão (linha tracejada na figura 7), menos acentuada do que a primeira, mas perceptível.

Adiante apresentaremos a interpretação cronológica e geodinâmica patente nesta interessante sequência. Por agora, limitar-nos-emos a chamar a atenção para a evidência nela consubstanciada, designadamente para a sucessão de episódios de erosão regressiva e episódios transgressivos de acumulação de sedimentos finos, quando se chegam inclusivamente a formar figuras próprias do fundos de paleocanais.

3.3. Posição estratigráfica do horizonte arqueológico


A escala demasiado pequena do registo gráfico das sondagens geológicas feitas no âmbito dos estudos geotécnicos da construção do aterro de acesso à ponte, não permite distinguir episódios menores dentro das duas grandes unidades sedimentares referidas. Todavia, prova de que os mesmos poderão ter existido é a descrição sincrética utilizada para a camada de topo, “areias e cascalheiras superficiais”, onde se situa o horizonte arqueológico objecto deste estudo e pudemos observar directamente, e verificámos ser passível de caracterização litoestratigráfica de muito maior pormenor, em estreita relação com as sucessivas condições geoclimáticas que presidiram à sua formação.

O registo de pormenor que realizámos da estratigrafia visível no talude imediatamente adjacente ao aterro de acesso à ponte (figura 8), no local onde depois viríamos a realizar uma pequena escavação (v. ponto 6.4.), é elucidativo daquilo que acabamos de referir. De baixo para cima, a sequência observada encontra-se registada no quadro 1 e na figura 8.
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