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Foi preciso passar várias décadas e chegar aos anos 40 deste século para que os trabalhos sobre o Quaternário e o Paleolítico do vale do Tejo fossem retomados com o mesmo vigor do séc. XIX. Cabe este relançamento da investigação a Georges Zbyzewski, sozinho ou em conjunto com Henri Breuil.
Ao mesmo tempo que esclareceram definitivamente a falta de fundamento das teses de Carlos Ribeiro, reconhecendo na colecção por ele reunida dois conjuntos líticos com proveniências estratigráficas diversas (um, de peças claramente trabalhadas, recolhidas não em depósitos terciários, mas quaternários; outro, de peças fracturadas por causas naturais, devidas a acções térmicas, acções tectónicas, choques devidos a causas diversas, etc., provenientes dos depósitos terciários subjacentes, mas de litologia genericamente idêntica à das camadas quaternárias) Zbyszewski e Breuil realizaram novos estudos de grande pioneirismo. Em 1946, no seu trabalho de síntese sobre o Quaternário de Alpiarça, Zbyszewski chega a declarar: “Quando em 1940 começámos o estudo dos terraços do Tejo, provámos o sentimento do explorador que entra pela primeira vez num terreno virgem (...). Com efeito, o enorme desenvolvimento dos terraços que se estendem desde Chamusca até Alcochete, estava marcado na antiga carta de 1/500 000 de 1899 sob a rubrica Pliocénico. Havia portanto um trabalho novo a realizar: a separação do Quaternário, que era necessário delimitar, e do verdadeiro Pliocénico, que devia ser separado, por seu lado, do Miocénico continental” (ZBYSZEWSKI 1946, pág. 146).
Realizam-se então levantamentos cartográficos muito detalhados das formações quaternárias e das indústrias associadas, estabelecendo-se uma sequência geral de terraços do Tejo, cuja interpretação geocronoclimática se fez a partir de paralelos com outros rios europeus melhor estudados (antes de todos, o rio Somme, onde Henri Breuil antes estivera e se constituía desde a época de Boucher de Perthes numa espécie de pátria dos estudos sobre o Paleolítico europeu) e dentro do quadro de referência global que o chamado “sistema glaciar alpino” e a teoria glácio-eustática possibilitavam. E ainda hoje em grande medida, como veremos no ponto seguinte, são estes levantamentos de campo e mesmo estas interpretações que servem de enquadramento para a análise de sítios e formações particulares no vale do Tejo.
3.1.2. Síntese dos conhecimentos actuais.
Localizando-se em pleno estuário do Tejo, o sítio da Conceição insere-se no conjunto das formações sedimentares deste rio, o qual está na origem da mais vasta rede de depósitos fluviais plistocénicos existente em território português, cujas características marcadamente diversas para montante justificam a diferenciação em duas principais unidades geomorfológicas: o Médio e o Baixo Tejo (reservando-se neste contexto o conceito de “alto Tejo” para o curso que se desenvolve deste a nascente até à região de Toledo).
Ao entrar em Portugal, e até próximo da vila de Belver, o Tejo corre numa direcção NNE- SSO, muito encaixado entre afloramentos xisto-grauváquicos ante-ordovícicos. Por vezes, atravessa granitos hercínicos, ou ante-hercínicos, cristas quartzíticas ordivícicas, como em Ródão, ou depósitos detríticos do Paleogénico e Miocénico indiferenciados, como é o caso das chamadas "arcoses da Beira", em Ródão também. Entre Belver e Constância, o Tejo muda de direcção, correndo sensivelmente no sentido E-O, descreve alguns meandros e atravessa diferentes tipos de rochas metamórficas, de natureza porfiróide, e meta-sedimentares, de idade pré-câmbrica e paleozóica. Estamos neste sector na parte terminal do Médio Tejo, zona onde começa a desenvolver-se o vasto preenchimento detrítico neogénico que se estende principalmente a SE do leito actual do rio e constitui a chamada "bacia do Tejo". Trata-se de uma planície aluvial do rio e dos seus tributários, local de depósito dos materiais provenientes tanto do "Maciço Hespérico" como dos extensos afloramentos carbonatados da orla meso-cenozóica, situados mais a Oeste. Neste domínio verifica-se sequência, espacialmente desenvolvida, de terraços plistocénicos (que antes apenas tinham surgido na pequena bacia sedimentar da região de Ródão), escalonados a diferentes níveis: altos (75-95m), médios (25-40m) e baixos (8-15m). Os afluentes mais importantes neste sector são o Ocreza e o Zêzere, ambos da margem Norte, mas de que somente no segundo, e especialmente no subafluente Nabão, se reconhecem terraços plistocénicos com indústria lítica paleolítica, na área da cidade de Tomar.
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