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Ponte Vasco da Gama
Em face de reacções como esta e tendo entretanto certamente tomado conhecimento dos trabalhos do Abade Bourgeois, que a propósito dos sílex fracturados de Thenay (Loir-et-Cher), lan­çou a ideia dos eólitos, Ribeiro revê as suas ideias anteriores e publica, em 1871, a sua obra mais célebre neste domínio: “Descrição de alguns sílex e quartzitos lascados encontrados nas camadas dos terrenos terciário e quaternário das bacias do Tejo e Sado”, na qual declara a dado passo: “Não estávamos então (de 1863 a 1856) bem informados a respeito das discussões que se ventilavam entre os sábios sobre a antiguidade do Homem pré-histórico (...) e por conseguinte fomos levados a admitir que a pedra lascada não po­lida só aparecia nos depósitos quaternários e nos de mais recente data (..­.). Hoje acabaram para nós todas as hesitações e dúvidas, que se tinham levantado no nosso espírito, nascidas unicamente da ideia pré-concebida - que a espécie humana não tinha precedido na série dos tempos geológicos o período diluvial ou qua­ternário; e assim devia acontecer, depois dos estudos que ulti­mamente fizemos” (RIBEIRO 1871, págs. 52 e 53). Em conformidade, Ribeiro afirma que “a pedra lascada encontrada nas camadas dos grupos a e a' (Miocénico infe­rior marinho e lacustre) diz-nos que o Homem habitou as nossas latitudes antes de se depositarem as camadas marinhas que formam a escarpa de Almada e constituem as colinas sobre que está assente a cidade de Lisboa; e a composição mineralógica e acidente das mesmas camadas autorizam-nos a asseverar que se o Homem não foi contemporâneo da erupção dos basaltos, que tão desenvolvidamente ocupam as cercanias desta cidade, presenciou todavia parte da actividade vulcânica que produziu aquela erupção” (RIBEIRO 1871, pág. 56).

Estava assim lançada a primeira “grande questão” do Paleolítico do vale do Tejo em Portugal: a da hipotética existência de um “Homem terciário”, cuja demonstração em exposições científicas e congressos internacionais (incluindo o “IX Congresso de Arqueologia e Antropologia Préhistoricas”, que teve lugar em Lisboa, no ano de 1880, precisamente sob o impacte desta questão, que procurou elucidar, sem ser conclusivo), provocou enorme debate, que Ribeiro viria antecipadamente a comentar, em termos que vale a pena citar, pela sua exemplaridade: “A indiferença, e mais ainda a oposição que, no ânimo da maior parte das pessoas dedicadas ao estudo das ciências e da litera­tura, encontraram as descobertas relativas ao homem primitivo ou antediluviano, tiveram diversas causas, entre as quais podemos mencionar: a dúvida que se manifesta sempre em receber factos e descobertas novas, quando se não harmonizam ou estão em desacordo com as ideias geralmente recebidas; os preconceitos e o fanatismo cego que muitos homens tem pelas teorias, preferindo antes morrer abraçados a elas do que prestar homenagem à evidência dos factos e à verdade; e por fim a pouca vontade do maior número em trocar os gozos e confortos domésticos pelos incómodos inevitá­veis das viagens e explorações, quando têm um fim puramente científico” (RIBEIRO 1871, pág. 33).

Depois dos trabalhos de Carlos Ribeiro, Paul Choffat deu início ao levantamento geológico do vale do Tejo na escala 1/50 000. Tratou-se todavia de um trabalho muito irregular, tendo a primeira folha nesta escala (referente a Cascais) apenas sido concluída em 1935, então já pelo organismo herdeiro da antiga Comissão Geológica: os Serviços Geológicos de Portugal. Como veremos, a região de Alcochete e Montijo, onde se situa a estação da Conceição, é precisamente uma daquelas em que Choffat deu início a este levantamento, sem no entanto o concluir e publicar (a respectiva folha viria somente a ser impressa pelos Serviços Geológicos de Portugal em 1950)..
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