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Ponte Vasco da Gama
3.1. O Quaternário do vale do Tejo

3.1.1. Resenha histórica

0 estudo geológico das séries detríticas do vale do Tejo, iniciou-se na 2ª. metade do séc. XIX, no âmbito da actividade da então criada Comissão Geológica do Reino. Do seu trabalho pioneiro, resultou, como obra de maior vulto, a primeira Carta Geológica de Portugal, na escala de 1/500 000, publicada em 1876, sucessivamente melhorada nas edições de 1878 e sobretudo na de 1899. Porém, este trabalho constituía já a síntese de importantes estudos anteriores, realizados por outros membros da citada Comissão, entre os quais Berkeley Cotter e Carlos Ribeiro, especialmente o último, pelos levantamentos a que procedeu em décadas anteriores.

Com efeito, podemos dizer que foram marcantes as ideias de Carlos Ribeiro em matéria do inicial levantamento geológico e interpretação cronológica das sequências detríticas do vale do Tejo, não obstante as suas incorrecções, explicáveis pela falta de bases estratigráficas, estabelecidas a partir de sequências-padrão que no seu tempo eram ainda desconhecidas.

Um dos aspectos mais interessantes na obra de Carlos Ribeiro é o do aproveitamento sistemático dos vestígios de ocupação humana paleolítica (ou ante-diluviana, como então se dizia) para uma melhor datação dos depósitos sedimentares. Assim, na sua “Descrição do solo quaternário das bacias hidrográficas do Tejo e Sado”, publicada em 1866, Ribeiro classifica diversas formações em função das indústrias líticas que possuíam, chegando a dizer: “Forçoso foi referir pela presença de sílex lascados à época quaternária, todas as rochas arenosas que constituem o relevo do solo na depressão de Ota e com elas toda a grande porção igualmente arenosa do mesmo depósito que demora para além do flanco esquerdo do vale do Tejo (...). Já o Sr. Delgado (...) tinha sido induzido a suspeitar que as camadas que formam a escarpa do Alfeite, na margem esquerda do Tejo, defronte de Lisboa, e bem assim a maior parte dos nossos depósitos arenosos superiores pertencessem ao período quaterná­rio. Pela nossa parte, estávamos então longe de aceitar esta classificação, que mais tarde reconhecemos ser a verdadeira (...)” (RIBEIRO 1866).

A associação entre indústrias humanas e depósitos geológicos, nem sempre suficientemente documentada, teve como consequência a atribuição ao Quaternário de uma potentíssima sequência sedimentar, de tal modo que provocaram alguma celeuma, quando apresentadas perante a Sociedade Geológica de França, em sessão de 23 de Maio de 1867 (RIBEIRO 1867). Verneuil haveria mesmo de escrever a Carlos Ribeiro a 16 de Junho do mesmo ano, declarando: "Je suis toujours un peu étonné de l’épaisseur de votre terrain quaternaire et de circonstances suivantes que vous mentionnez: 1º. - Le Quaternaire a 400 m; 2º. - I1 est soulevé et quelquefois en stratification inclinée jusqu’à verticale; 3º. - I1 contient de masses de calcaire dur et semblable à du calcaire secondaire; 4º. -Enfin, et ce qu'il y a de plus curieux, on y trouve des haches fabriques de main de l'homme en silex et en quartzite, et c'est à 1a base du terrain que l'on trouve ces instruments, c'est-à-dire que depuis leur confection il s’est formé un depôt de 400 m d’épaisseur” (RIBEIRO 1871, pág. 53, nota 1).
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